23.2.09

Comentário

Vou comentar os Oscars. É tarde e tenho sono. Não vou, portanto, desenvolver raciocínios. Não irei, também, opinar sobre a justiça de cada estatueta porque só vi dois filmes dos nomeados (de todas as categorias). Isto é um comentário telegráfico à cerimónia:
O número musical inicial (perdoe-se-me a rima) foi embaraçoso. Não tenho paciência.
O Hugh Jackman deve ter agradado ao público feminino. A mim não. Demasiado certinho e correcto, preferia ver um comediante com piada e substância (pensar que se chegou a falar do Ricky Gervais...). Ainda assim, não comprometeu.
Ben Stiller e Steve Martin fizeram-me rir. Isto só prova que tenho razão no ponto anterior a este.
O cenário era demasiado escuro e sem graça. As cortinas deram problemas.
Gostei do truque de magia dos vencedores de Melhor Documentário (Man on Wire).
A decisão de serem cinco os apresentadores a anunciar os vencedores nas categorias de representação foi bem esgalhada. Gostava de ver um desafio de futebol de cinco entre a equipa do De Niro e a que anunciou o Oscar de Melhor Actor Secundário.
Não achei nenhuma mulher especialmente deslumbrante. Isto não quer dizer que não deseje ficar preso num elevador com algumas das actrizes presentes. Exemplos: Meryl Streep e Penélope Cruz. Podia ser ao mesmo tempo.
Gostava de ser o Seann Penn sem a sua voz nasalada.
O filme da noite é aquele que tem todos os condimentos para eu odiar: uma história inverossímil sem se assumir fantasiosa filmada num país exótico e de terceiro mundo.
Fiquei surpreendido por ver o Isaac Hayes no obituário. Esperava um esquecimento apesar de uma das melhores bandas-sonoras de sempre (Shaft) ser dele. É com ela que me despeço. Boa noite.

15.2.09

O rapaz com duas cabeças

Nunca chegará o dia em que conseguirei exprimir por palavras, racionalizar, os sentimentos provocados pela audição de In the aeroplane over the sea, o segundo e derradeiro álbum dos Neutral Milk Hotel. Não sei se a voz de Jeff Mangum se voltará a ouvir em projectos futuros, mas isso pouco importa face ao que deixou feito.



Two-headed boy / All floating in glass / The sun, it is passed / Now it's blacker than black / I can hear as you tap on your jar / I am listening to hear where you are / I am listening to hear where you are // Two-headed boy / Put on Sunday shoes / And dance 'round the room to accordion keys / With the needle that sings in your heart / Catching signals that sound in the dark / Catching signals that sound in the dark // We will take off our clothes / And they'll be placing fingers through the notches in your spine / And when all is breaking / Everything that you could keep aside / Now your eyes ain't moving now / They just lay there in their climb // Two-headed boy / With pulleys and weights / Creating a radio played just for two / In the parlor with a moon across her face / And through the music he sweetly displays / Silver speakers that sparkle all day / Made for his lover who's floating / And choking with her hands across her face // And in the dark we will take off our clothes / And they'll be placing fingers through the notches in your spine / And when all is breaking / Everything that you could keep aside / Now your eyes ain't moving now / They just lay there in their climb // Two-headed boy / There's no reason to grieve / The world that you need is wrapped in gold silver sleeves / Left beneath Christmas trees in the snow / And I will take you and leave you alone / Watching spirals of white softly flow / Over your eyelids and all you did / Will wait until the point when you let go

13.2.09

Ambientes

Quando penso na expressão "ambiente de trabalho" (sim, aquela janela base dos computadores), fico sempre embaraçado. Isto porque o meu "ambiente de trabalho" do computador reflecte a desorganização do meu ambiente de trabalho extra-computador. São 73 itens (entre pastas, imagens, documentos, vídeos, músicas, etc.) espalhados naquilo que já foi uma organização temática e que agora é apenas uma salgalhada que não percebo. Fora desta existência virtual, a coisa é mais ou menos igual: canecas acumuladas (às vezes restos de leite que me esqueci de beber), CD, DVD, livros (confundido-se o que é meu com o que me emprestam), papéis e pedaços de papéis dispostos aleatoriamente, postais grátis, coisas da faculdade, uma lata de nesquik, canetas, lápis, comida, água. E acho piada àquelas pessoas que dizem que é assim que sabem sempre onde estão as coisas e que quando as arrumam tudo se complica. De minha parte, não estou aqui para enganar ninguém: isto não é mania, é mesmo incapacidade de organização. E claro que começo sempre pelo mais fácil, que só exige a mão no rato: arrumar o "ambiente de trabalho". O ambiente de trabalho fica para depois.

Dever cumprido

Decidi que esta noite ia escrever um poema. E escrevi. Ainda bem que não acredito na inspiração.
Já me deito com o sentimento de dever cumprido.
Mesmo que amanhã o poema acorde de trombas.

12.2.09

E nem sequer gosto de pés

É inevitável: uma das primeiras coisas em que reparo quando olho para alguém é o calçado. Dependendo da situação, ou olho para o rosto e logo depois para o calçado (por exemplo: num café), ou é mesmo primeiro o calçado que me faz depois olhar para o resto (por exemplo: no metro).
Consequentemente, uma pessoa muito bem parecida, mas com uma má escolha de calçado, é de imediato encaixotada, no meu cérebro, no contentor dos desinteressantes. Já uma pessoa cujo calçado compensa uma aparência menos apelativa, leva o carimbo de aprovação.
Em ambos os casos, todavia, a análise prossegue mais demoradamente. Se o calçado me agrada, procuro outros pontos que sustentem a minha teoria de que aquela pessoa é interessante. Se o calçado for um desastre, faço o exercício da curiosidade mórbida, em busca de mais preciosidades que testemunhem o mau gosto da pessoa em questão.
Claro que umas unhas de gel não salvam o mais belo dos sapatos. Nem uns ténis desportivos com amortecedores ofuscam um livro de António Franco Alexandre na mão.
O facto é que raramente me engano.

Nada de novo

Na imagem do cabeçalho está representada uma máquina de escrever. Ontem, ao escolhê-la, encarei-a como um incentivo: tens de escrever, Emanuel, tens de escrever. Para isso, comprei um caderno. Quero voltar a escrever à mão. Não sei porquê. Manias, talvez. Sou muito dado a bloqueios e agora é o computador que me bloqueia. Alturas houve em que era a caneta, a casa, etc… Se calhar tenho apenas falta de talento.
Lamechices à parte, quando me decidi meter neste blogue, pensei em fazer uma espécie de relato da minha aventura literária. Será, tenho a certeza, um relato cheio de actos falhados. Sou demasiado exigente com aquilo que escrevo. Quase tudo tem o mesmo destino: fica na gaveta. Começo hoje o relato:
Há uns dias escrevi um texto que tinha uma imagem muito forte. Fiquei orgulhoso dela. Guardei o documento – ainda escrevia a computador – e relaxei ouvindo música. Era madrugada, fui-me deitar com aquela imagem. Quando acordei tinha a certeza que daquele texto só aquela imagem, que durava uma frase, valia a pena. Todo o restante texto era banal.
Levantei-me cheio de planos de editar o texto e deixar apenas isso. Sabia que uma página ia-se transformar num parágrafo. Não me preocupei muito, não tenho planos de escrever nada de grande fôlego e na noite anterior tinha lido uma coisa muito pequena do Robert Walser. Isso, de certa forma, legitimava as chamadas micronarrativas, género ao qual sou, confesso, um pouco preconceituoso.
Quando abri o documento, uma sensação de vazio apoderou-se de mim. Comecei a duvidar que uma imagem valha um texto. Achei que uma imagem mais não é que um pinote do escritor e não me apetece dar nas vistas. Não quero que se note a minha presença nos meus textos. E acho que naquele caso se ia notar. Todas estas dúvidas desmotivaram-me. Fechei o documento, meti os auscultadores nos ouvidos e dediquei o dia à audição de música.
Nada de novo.

Ao vivo é melhor

Ontem vi um concerto d'Os Quais, na fnac do Chiado. Só tinha ouvido ainda uma música, "Caído no Ringue", que tem pelo meio um poema de José Tolentino Mendonça, de modo que fui só pela curiosidade que as coisas grátis minimamente interessantes nos despertam (como o livro do Mexia, só que aqui nem um euro foi preciso desembolsar).
Os Quais não serão a next big thing, mas ainda assim fiquei agradavelmente surpreendido. São uma espécie de Tiago Bettencourt mais simplista, mais infantil e mais próximo da fronteira entre o pop e o piroso. Mas com mais referências, ou não fosse o vocalista também escritor: Jacinto Lucas Pires.
Só que quando chego a casa e vou ao myspace dos rapazes, a coisa não funciona tão bem. Ao vivo, com o ar de menino tímido de JLP e o seu sorriso infantil, que vai muito bem com as letras, e uma primeira fila cuja média de idades rondava os cinco anos, aquilo pareceu tudo muito bonito. No myspace, e imagino que no disco também, não funciona tão bem.
Pelo menos saí do Chiado a sorrir. E hei-de ficar atento ao futuro d'Os Quais.
Deixo o poema de José Tolentino Mendonça.

"Sobre um improviso de John Coltrane"

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia

primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção

11.2.09

Ainda o Mexia

Estou um bocado aborrecido com o Mexia. Eu gostava de não gostar dele. Só porque sim (ok: a figura, a voz, a religião, a política). E agora os textos do Fora do Mundo (Cotovia) deram-me vontade de começar este blogue. Põem-me a rir no metro. E até o cito num primeiro post.
Nada disto, contudo, teria acontecido, não fosse o livro estar a um euro em época de saldos. Assim dá gosto dar oportunidades a pessoas embirrantes.

Boa noite

Não ter nada para dizer é um bom motivo para se iniciar um blogue. Portanto, deixo-vos com uma música: Things Ain't Like They Used To Be dos The Black Keys, aqui acompanhados por Jessica Lea Mayfield. Não fiquem para ver o vídeo porque ele não existe. Oiçam só.

Aviso à navegação

«O blogue pessoal [...] é um género literário, por isso uma construção, mantendo uma relação complexa com a realidade. Não imaginem por isso que conhecem um bloguista que nunca viram, com quem nunca falaram.»

Pedro Mexia, Fora do Mundo